terça-feira, 17 de abril de 2012

Meu puto#2

 32 meses. 32 distantes e vazios meses. Quando decidiste partir, não sei se algum dia pensaste sequer em quem deixavas para trás. Um Pai. Uma Mãe. Uma Irmã. Tantos amigos. Quando me deixo transportar para aqueles dias de tortura, torno a abrir esta ferida que nunca chega a cicatrizar. 

Nunca te contei como soube. Nunca falei nisso. Era por volta das 8h da manhã e tinha chegado a casa há bem pouco tempo. Festas da terrinha, semana de excessos. Primeira noite de festas, é sempre até cair de cansaço. Tinha acabado de adormecer. E o meu pai abre a porta do quarto. "Rita, levanta-te que aconteceu uma coisa!". E eu entorpecida pelo cansaço e algum álcool. Nem conseguia raciocinar. "Rita, o Luís...". Nem pensei em ti, confesso. Tinha-te visto ainda há um bocado. Estavas bem (parecias). "Qual Luís?". O pânico. Não conheço muitos Luís. Mas não sei, nem conseguia pensar. "O irmão da...". Incrédula. O pânico. Não quis acreditar. E perguntei como. Quando. Onde. E o meu pai pouco sabia. Ou sabia muito mas quis contar pouco. Segui com o meu irmão para a tua casa. Ambulância. Imensa gente à tua porta. A GNR. Caí na realidade. Aconteceu mesmo alguma coisa. Não pude acreditar que nos tinha feito isto. Chorei tanto. Chorei imenso. Liguei à minha melhor amiga, M., também tua amiga. Vi a tua irmã e abracei-a. Ela estava tão estranha. Calma. Claro que não estava calma. Estava apática. Quis ajudá-la, sabes? Quis saber o que dizer. Mas nem eu própria me conseguia aguentar. Desta vez não poderia ser suporte de ninguém.

O velório. A tua foto. Aquela maldita foto em que tu não és tu. O teu nome. Porra. Era mesmo verdade e estava a acontecer a um ritmo feroz. Tantos. Éramos dezenas de jovens à porta da igreja. Sentados. Uns a chorar, outros a recordar. Passámos o dia inteiro lá. A noite. Sempre lá. Entrei na igreja. Precisava de ver a tua Mãe. E abraçou-me e disse-me "Vocês agora precisam de ajudar a ... (irmã)". E eu disse para ela não se preocupar, que nós não íamos a lado nenhum. Estaríamos sempre ali.

O teu caixão foi carregado em ombros até ao cemitério. Todos a pé. Tanta gente. Nunca tinha visto um funeral tão grande. Tanta dor. Era a tua derradeira viagem e foi o momento mais horrível e impotente da minha vida. E foi há já (só!) 32 meses que a pior semana da minha vida terminou. Terminou? Foi o início da minha nova vida. Sem ti. Como posso esquecer se estás em todos os recantos da minha existência? 

É uma saudade que cresce a um ritmo galopante!
E a tua irmã fugiu-nos. Lembramo-la de ti e ela foge das lembranças.
E passados 6 meses o teu pai foi ao teu encontro.
Nunca te esquecerei, prometo*



5 comentários:

  1. Não vale a pena dizer-te que sei o que sentes.. Cada um tem as suas dores, mas a nossa neste caso, é tantas vezes parecida... Consigo rever-me em tantas das tuas memórias... Foram casos completamente diferentes, a minha mãe teve doente 3 anos e morreu com uma embolia cerebral derivada da anestesia (não deixa de ser irónico e estúpido depois de 3 anos a lutar contra 2 cancros), ou pelo menos foi o que nos fizeram crer... Mas eu soube por telefone, à saida da escola. Morava numa terrinha pequena, tanta gente já sabia e ninguém me contou porque os meus irmãos queriam contar-me apenas quando chegasse a casa. Uma amiga ligou, achou que eu já estava em casa, "Como estás?" e eu sem perceber, "Bem", "Deve estar a ser difícil, se precisares de mim diz, tou a caminho de tua casa", "Mas porquê, não combinámos nada pois não?", "Ah, merda! Tu ainda não sabes", "Não sei o quê?" confusa que estava, "A tua mãe...", "A minha mãe o quê? Está no hospital, vou lá vê-la hoje", "Não... A tua mãe morreu.", cai para o chão, larguei tudo e sentei-me no lancil, à entrada da escola, "Não!! Tás a mentir! Tás doida?" olhei para a minha melhor amiga que estava comigo e ela chorava, já sabia ela também, e não me contou. Houve revolta, gritei com ela, porque é que não me tinha contado? "Os teus irmãos queriam contar-te, não era suposto saberes assim". E chorei, chorei, chorei. Levantei-me e fui a correr para casa, não sei como lá cheguei, não via nada com as lágrimas a escorrerem-me pela cara. Abracei-me aos meus irmãos, e chorámos os 3 como nunca...
    A capela e o a dor que eu senti quando a vi ali deitada, com um ar tão sereno... Uma dor lancinante que não sei descrever, agarrei-me ao caixão e fiquei ali, lavada em lágrimas a sussurrar "Porquê? Ainda preciso tanto de ti".
    O caminho para o cemitério, atrás do carro... A dor, o olhar para trás e ver um mar de gente... O fechar da gaveta... O beijo no caixão... Tudo... Coisas que eu nunca vou esquecer... Tinha 14 anos, e ainda hoje me lembro de casa momento, cada pormenor, cada soluço... A falta que eu sinto dela é enorme e nunca ninguém irá colmatar essa falha... Assim como ninguém te irá colmatar a falta do L. mas temos de pensar que eles são nossos, que nos deram mil alegrias, sorrisos e tudo o mais e saber que nunca os iremos esquecer...
    Gosto de ti sabes? Fazes-me querer falar sobre isto (não costumo) e ajudas-me... =)*

    (Desculpa o testamento)

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    1. Primeira questão: queres de deixe o teu desabafo publicado?

      Como já te disse antes, não consigo imaginar a dor da tua perda. Vá, talvez consiga sentir o desespero se tentar imaginar (coisa que não quero). Eras tão menina, numa idade em que Elas nos fazem falta como nunca! Foram realidades diferentes as nossas mas acredito que conseguimos encontrar pontos comuns e talvez compreender o que uma e outra sente. Além disso a tua Mãe foi uma guerreira (é o que acho de quem arranja forças para lutar pela sua vida) e merecia mais.

      Não sei bem o que te dizer, sabes? Acho mesmo que falar sobre o que nos magoa, por vezes ajuda. Eu tenho necessidade de falar dele e fico grata que me leias e que, com os meus desabafos, consigas arranjar forças para também tu falares Dela =)

      OBRIGADA!

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    2. *Queres que deixe o teu desabafo publicado? (desculpa o erro!)

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  2. Podes deixar se quiseres... São coisas diferentes, mas não deixam de ser algo em comum , que pelo menos no meu ponto de vista, nos ajuda a suportar. Acho que tenho o meu mail no blog, se precisares de alguma coisa, ou quiseres desabafar sem ser no blog, be my guest :) *

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  3. Vou ser um bocado pretensiosa e dizer que este assunto está mais ou menos resolvido na minha cabeça. Ou eu quero achar que sim. Por vezes chateio-me com ele (isto é estúpido mas acontece) e tenho raiva... e penso que foi decisão dele, uma decisão egoísta. Mas depois vejo que a egoísta sou eu, que o queria aqui comigo para eu não sofrer, por muito que ele sofresse! Então conformo-me... ou finjo estar conformada! É como uma montanha-russa, cheia de altos e baixos! BAH!

    Obrigada querida ;)*

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