segunda-feira, 11 de junho de 2012

Naquele dia que dói

Metade de mim grita em silêncio por respostas que nunca serão dadas. O meu Eu pragmático e racional, consegue entender porque nos impediram de te ver uma última vez. Mas o meu Eu emocional, o meu Eu que sente a tua perda a cada dia, não consegue perdoar e muito menos esquecer que impediram um último adeus. 
Sim, devemos lembrar-nos das pessoas em vida, a rir, nos seus melhores momentos. Mas eu sou apologista de despedidas e queria ter tido esse direito. Queria que essa opção me tivesse sido dada. Porque quero acreditar que tu, Luís, estavas reconhecível. Que a tua cara estava imaculada e que eras realmente tu que estavas ali deitado, naquela igreja fria e escura. Odeio aquela igreja, que te acolheu a ti e à minha avó. Voltei lá por mais duas vezes desde que morreste e aquela igreja sufoca-me. Não é só por me fazer lembrar aquele dia. É por me trazer toda uma panóplia de sentimentos que dispenso. Que detesto. Naquele dia, só entrei lá dentro por uma única vez. Abracei a tua mãe e olhei para lá, para onde estavas. Rodeado de flores (alguém alguma vez te perguntou se querias flores? Porque não pode haver música nos velórios?). Olhei para o altar, para a imagem de Jesus na sua cruz e lembro-me de pensar que sempre acreditei em Deus, sempre acreditei na sua transcendência. Mas não naquele dia. Naquele dia, pedi tanto a Deus por um milagre. Qualquer coisa. Pedi para voltar atrás naquela semana. Pedi para ter tido inteligência suficiente para perceber o que estavas a pensar e a sentir. Supliquei para que alguém tivesse agido e tivesse impedido a tua partida. Sou injusta, eu sei. Mas há alturas que o mais cruel de nós sobrepõe-se a tudo o resto. Eu odiei-O nesse dia. E odiei-te a ti, Luís. Até chegar à igreja, onde tudo se tornou mais real. Doloroso. Irreversível. Quero recordar os bons momentos mas tenho imagens gravadas na memória, que me fazem chorar a tua perda. Escrevo para ti porque se não falar contigo, falo com quem? A tua irmã evita o assunto (claro que nunca insistirei com ela sobre ti), a tua mãe não tem andado pela terrinha, os teus/nossos amigos cessam as conversas passado uns minutos. Sim, temos de seguir em frente. Eu sei. Eu sou feliz, eu tenho a minha vida a avançar. Não estou deprimida, não me sinto sem forças. Não é nada disso, sinto apenas e só saudades. De ti. Da tua essência. De nós. Porque deixaste todos os espaços que frequentávamos vazios e com eles um silêncio ensurdecedor.


O teu lugar é só teu. Celei-o e não deixo ninguém ocupá-lo.
Se há insubstituíveis,  tu és um deles!

7 comentários:

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    1. Sempre recebido de braços abertos ;)*

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  2. Há pessoas que nos roubam um pedaço... força.

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    1. Há gentes que marcam a vida de outras gentes, essa é que é essa!

      Obrigada*

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  3. Tens uma forma tão madura e bonita de lidar com isto...

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    1. São quase 3 anos... tive de mentalizar-me de muitas coisas, aprender outras tantas, aceitar e tentar viver acima disso. Não foi fácil, não se torna mais fácil... tornamo-nos é mais capazes!

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  4. sim, é isso e obrigada. mas sabes? é difícil, princesa.

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