quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ninguém morre sozinho

Vinha no metro e vi-o. Um rapaz de cabelo rapado, fisionomia igual à tua, cara semelhante. Faltava-lhe o aparelho nos dentes e acho que foi aí que acordei do transe. Estou a ficar maluca quando acho que te vejo noutras pessoas. Porque tu não estás cá. Tu não estás em lado algum. Deixaste a tua presença, a tua saudade, as tuas memórias (ou serão as minhas?). Mas tu não estás, logo não posso ver-te. O meu cérebro insiste em pregar-me partidas e, de tempos a tempos, o meu coração dispara porque acho que és tu. 
Aconchega-me um pouco o coração quando vejo alguma coisa tua em pessoas que não são tu. Mas depois dói, quando recordo que tu já não existes. Ou existes em mim e nas minhas recordações mas não és nada de tangível e eu queria abraçar-te, brincar contigo, ouvir-te a rir, ouvir as tuas anedotas. Queria que vivesses e que fosses feliz. Acredito piamente que hoje, se ainda estivesses vivo, serias feliz. Fazias nascer a felicidade em pequenos momentos e eu imortalizava-os, qual fotografia, na minha memória. 
Luís, o dia em que deixaste de existir, foi como um murro no estômago (e olha que nunca levei nenhum), que nos deixou sem ar ou reacção.

"Quis guardar-te junto a tudo o que tenho cá dentro, bem perto do mais íntimo que possuo. Sei que não vou voltar a ouvir os teus passos de amor no silêncio da noite, a vida agora tão inquieta pesa nos meus ombros, estou cansado de chorar a raiva de teres partido, mas quero que saibas que não te esquecerei."

Saber que partiste e que nada pudemos fazer para te ajudar, sabendo que nem sequer pediste ajuda, dá-nos uma sensação de impotência que nunca conseguirei explicar. E as pessoas nem sabem o quanto ajuda falar de ti, do que aconteceu e de como a tua existência foi importante para todos nós. Foi esta a principal razão para começar a escrever aqui. Por ti, para ti e sobre ti. Deixou de ser suficiente escrever em papel. Quase 3 anos depois, num tempo que não pára mas que ainda assim custa tanto a passar, as saudades não morrem. Mudam, claro que sim. São saudades apaziguadas, de quem já aceitou o destino que tu próprio traçaste, mas que não são apagadas pelo tempo. Nunca poderei permitir-me esquecer-te ou deixar de te dar a conhecer, todas as pessoas deviam de ter o privilégio de conhecer alguém como tu. 

Não, não te tornaste uma pessoa excepcional porque morreste. Nunca pensei assim. A morte (já digo esta palavra com muito mais à-vontade, finalmente) não torna as pessoas boas, santas ou imaculadas. Tens os teus defeitos. Eras mimado, gostavas de tudo à tua maneira e tinhas dias em que eras insuportável. Mas eras  um amigo daqueles, que está lá para tudo. Preenchias silêncios, cessavas conflitos, enchias uma vida.
Tenho saudades da vida que nos rodeava porque era uma vida que me fazia feliz. Ainda sou feliz mas sem ti,  esforço-me mais para isso. A felicidade devia ser como tu a tornavas, espontânea!
Sinto tanto a tua falta!

Há pessoas que não gostam que eu escreva sobre ti. Não gostam porque há este falso moralismo em relação ao suicídio. Quando falamos de ti, falamos da tua morte mas nunca da sua causa e eu acho isso estúpido. Foi o que aconteceu, foste vítima do teu próprio inferno e agora já consigo falar bem sobre isso. Dói falar nas causas mas não tenho vergonha de falar da tua morte. Nem podia ter vergonha, se a saudade é superior a tudo o resto. Portanto, quero que saibas, que vou sempre falar em ti, para ti e por ti. Não te deixarei morrer, prometo!

“A autodestruição surge após várias perdas, fragmentos de dias perdidos ao longo dos anos, rupturas, pequenos conflitos que se acumulam hora a hora, a tornar impossível olhar para si próprio. O suicídio é uma estratégia, às vezes uma táctica de sobrevivência quando o gesto falha, tudo se modifica em redor após a tentativa. E quando a mão certeira, não se engana no número de comprimidos ou no tiro definitivo, a angustia intolerável cessa nesse momento e, quem sabe, uma paz duradoura preenche quem parte. Ou, pelo contrário e talvez mais provável, fica-se na duvida em viver ou morrer, a cabeça hesita até ao ultimo momento, quer-se partir e continuar cá, às vezes deseja-se morrer e renascer diferente.”


Excertos tirados do meu livro de eleição "Tudo o que temos cá dentro", de Daniel Sampaio

4 comentários:

  1. Como te percebo... E o que eu adoro esse livro :)

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    1. Sem dúvida o meu livro favorito! E se eu adoro Daniel Sampaio, Homem de convicções fortes e que tem sempre resposta para as minhas dúvidas existenciais!
      ;) ***

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  2. Respostas
    1. E tão sentido! Por vezes faz-me falta exorcizar este meu "fantasma".

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